sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

a traição das metáforas




com os dentes cravados na memória
BraZilírica Pereira: A Traição das Metáforas

outubro 2002 já era setembro inda me lembro depois do jantar na associação de artes plásticas em cantorias caminhamos em direção ao hotel VinoCap quando nos despedimos subi para ao apartamento e a metáfora com as entre/minhas  subiu a escadaria para a cidade alta

no quarto enquanto bebia um conhac pensava em nossas cartas incandescentes o telefone tocou: - vai dormir? - ouvi do outro lado da linha a metáfora me convidando para uma embriaguez a dois

bolero blue

beber desse conhac
em tua boca
para matar a febre nas entranhas
entre dentes - indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai

a carne de maçã: teu corpo devorei a cada dentada metáfora  à flor da pele toda nua me recebeu na cama que era o chão da sala há 6 anos desejava teu corpo como quem deseja um prato de comida quando a fome é tonta  nossa meta é física e o amor é quântico sem lucidez alguma até que passe a fome e o amor acabe

Artur Gomes







quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

poétika



poética

o gosto de romã na boca
morde a minha boca
com tua boca de mulher
o mal-me-quer floriu na cama
ainda agora
é hora de brotar um outro fruto
o gozo absoluto
quando o amor vier

Artur Gomes



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

sacramento


69

sessenta e nove pode ser um número com segundas intenções no sacramento em são sebastião era setembro eu olhava no quintal do casarão o  casal secando o café sob um sol esplêndido em calor de luz um sabiá cantava no pomar ao lado da BR 040 em meu silêncio nos dentes da memória a noite que se foi com aline na pele do acetato do filme que ficou para sempre como o sangue que escorre em minhas veias



entre músculos e ossos

decifrar os signos em sacramento é impossível aline só me quer silêncio beija-flor risca no espaço beijo de amor indecifrável eu me perco em seus tecidos sobre a pele entre a carne e a flor por entre pelos ainda que o desejo fosse maior que o impulso que não houve aline me provoca o som que não sai da boca como clara de ovo que não rompeu a casca e o poema gema  sufocada entre  músculos e ossos 


61

revirei sacramento pelo avesso do avesso aline me acompanhou passo a passo pela ladeira até a casa dos fundos canários no quintal catavam o que comer fotografamos e filmamos o que pairou no ar e não perdoa o éter dentro o cafezal nos convidava ao êxtase aline olhou pelo espelho da janela que dava para o outro lado da alma e levitou entre as trilhas dos canteiros ouvindo o som que nos unia



eclipse do desejo

30 de setembro em sacramento batismo de fogo no balcão da barraca peço cerveja preta encho o primeiro copo e ofereço pra Xangô aline me olha com os olhos incendiados e sob a blusa branca dois pequenos e lindos seios rosados palpitam e me suplicam beijos dos lábios ela tira uma rosa vermelha e me entrega o signo oculto para nunca esquecê-la caminha pela ladeira até a porta da casa dos alcóolicos anônimos fotografa uma estrela cadente abre seu livro e faz um pedido nunca revelado no eclipse do desejo que levarei para toda eternidade

Artur Gomes

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

alquimia


anti/lírica

um poema bashô aqui
nas 7 paredes do corpo
nos 4 cantos da casa
instigante satírico sarcástico
e ao mesmo tempo
esse ácido lirismo
é como um anjo
de belas brancas asas

Gigi Mocidade




 anti o falso moralismo

logo abaixo do umbigo
entre a flor e o tecido
a boca do desejo
esperando por um beijo
Gigi me dá o que tem de bom
a boca do desejo suja de batom

Federico Baudelaire 


alquimia

uma viagem entre o profano e o sagrado sacramento
o casamento palavra/imagem aline andava os tensos músculos do meu corpo caminhando em minha frente quando olhei pelas fendas da estrada as curvas do teu corpo da nuca ao calcanhar desejei o que estava entre a pele e o tecido ela se voltou num susto e me olhou como se entendesse tudo o que eu pensava naquele transe de cavalo em pradaria galopando o proibido corpo do poema em alquimia

Artur Gomes 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

a flor branca do café



a flor branca do café

no casarão entranhado entre os cafezais às margens da BR 040 a alvorada dos pássaros é uma festa para os tímpanos bem antes dos primeiros raios de sol aline cheira o branco da flor do café e me oferece na boca a velocidade do tempo que em sacramento não tem pressa experimento a sensação de não estar ali e ao mesmo tempo estando é como se o tempo não existisse entre o fato consumado

Artur Gomes

terça-feira, 28 de novembro de 2017

atentado poético



atentado poético

a hipocrisia aqui é muita
liberdade muito pouca
com meus dentes de navalha
vou rasgas a tua roupa
esse poema beijo/bomba
vai explodir na tua boca

Federico Baudelaire

domingo, 26 de novembro de 2017

sessenta e nove



sessenta e nove
agora nunca mais verás de tudo o que ainda sei na república dos fundos o número é apenas 69 nas entre minhas das paredes e o cavalo que pasta entre as cercas de arames farpados e o muro que separa duas famílias em casas  abandonadas  das sagradas escrituras de São Sebastião do sacramento onde aline ainda procura por ali o amor que um dia fui

Artur Gomes