quarta-feira, 25 de maio de 2016

meta metáfora no poema meta





 meta metáfora no poema meta

como alcançá-la plena
no impulso onde universo pulsa
no poema onde estico plumo
onde o nervo da palavra cresce
onde a linha que separa a pele
é o tecido que o teu corpo veste

como alcançá-la pluma
nessa teia que aranha tece
entre um beijo outro no mamilo
onde aquilo que a pele em plumo
rompe a linha do sentido e cresce
onde o nervo da palavra sobe
o tecido do teu corpo desce
onde a teia que o alcançar descobre
no sentido que o poema é prece





vertigem 10

de pedra dourada ficaram portas
janelas de entradas e saídas
a sedução de dois olhos
em minha carne proibida

de pedra dourada ficou um café orgânico
numa manhã de domingo
do outro lado da trilha
com tanta veraCidade
que me esqueci da idade
e me apaixonei por tua filha



Artur Gomes

vertigem 11




com os dentes cravados na memória
vertigem 11

em
são sebastião do sacramento
suas coxas em movimento
me lembram peixes sagrados
no mar que minas não tem

mãos por teus montes claros
provocam marés - atropelos
passeio de língua entre pelos
em outras partes também
lábios de mel abissal
peixe espada noutro mar - prometeus
desejos despindo teus seios
teus dentes cravados nos meus

a lua por sobre a capela
a luz em tua alma - donzela
afrodite  - uma  caça indefesa
presa - em minhas unhas de zeus

Federico Baudelaire

terça-feira, 24 de maio de 2016

vertigem 9



vertigem 9

pedra dourada
não é uma metáfora
em minha carne de maio
em tantas almas de pedra
nas minas que provoquei
nas juras secretas que fiz
quando em teu corpo toquei

de pedra dourada
na língua trago guardado
o doce das águas do rio
molhado beijo - luísa
as marcas na minha camisa
sugadas da tua blusa
a flor do láscio que usa
entre as montanhas no cio

Artur Gomes

segunda-feira, 23 de maio de 2016

mariana


mariana

quando penso minas
penso montes penso pelos
cabelos alvoroçados entre  coxas
por tanta carne de ferro

era 5 de novembro de um ano passado
a lama explodiu barragens
e foi levando as mortes
homens peixes mulheres crianças
e um rio que era doce
 assassinados pela Vale
com seu maldito instinto de exploração

s-amargo esse país minerador
com fome de explorar a terra
até o derradeiro grão

Artur Gomes



com os dentes cravados na memória

 

com os dentes cravados na memória

vertigem 8

de pedra dourada ficaram dedos
em minha língua de pétalas
desejos não saciados
por águas de cachoeiras
por trilhas inalcançáveis
na pele dourada de sol

de pedra dourada ficaram minas
cravadas na flor da memória
no corpo cicatriz - tatuagem
nos olhos quanta vertigem
não sei por quantas viagens
ainda terei estas minas
em cada sulco dos dedos
em cada pedra nas mãos

Artur Gomes

domingo, 22 de maio de 2016

minas



minas

de manhuassu a sacramento
pedra dourada na esfinge do deserto
o beijo ainda guardado
a carne que ainda não vejo
nas minas de montes claros
meus dedos tocando pedras
minha língua por tantas falas
palavras de um só desejo
aline por quantas horas
no rio dos seus mistérios
no mar desse seu silêncio

Artur Gomes Gumes


sexta-feira, 20 de maio de 2016

com os dentes cravados na memória



com os dentes cravados na memória

nasci entre canaviais
 e fornos de cerâmica
cresci vendo homens cortando cana
queimando tijolos no fogo
por míseros salários mínimos
assando o corpo no sol
nos olhos lágrimas de sal
cacomanga cicatriz na carne
500 anos de escravidão
com os dentes cravados na memória
acendo um facho de luz
na sua eterna escuridão

Artur Gomes Gumes

quinta-feira, 19 de maio de 2016

no coração dos boatos 2





no coração dos boatos 2

Agora que ocupo  esta cadeira de Presidente do Reino/ficção de Assombradado, acabo de nomear como meus assessores diretos todos os membros da Mocidade Independente de Padre Olivácio, começo a
desfiar a colcha de mistérios que envolve o nosso vizinho Reino Imperial de Brasylândya desde as década de 50/60 do século passado. Há muito venho me perguntando: - quantos mendigos Sandra Cavalcanti afogou no rio Guandu? Quem deu o tiro de misericórdia no assassinato de Getúlio Vargas? Quem desligou o aparelho que mantinha Tancredo Neves respirando? Por quê até hoje o corpo de Ulisses não foi encontrado?
Como podem v(l)er são muitas perguntas ainda sem respostas, e por quê também os órgãos investigatórios do vizinho Reino até hoje não se esforçaram em esclarecer?
 Como nosso mestre Uilcon Pereira sempre observou: - o homem/aranha também é um fantasma que transita pelos telhados obscuros de Brasylândya e Assombradado, e na ex-capitania dos Goytacazes Usina sempre foi e sempre será Usura.

Bracutaia Pereira da Silva

quarta-feira, 18 de maio de 2016

no coração dos boatos




no coração dos boatos

Após ser eleito Presidente de Assombradado  o reino/ficção Bracutaia Pereira da Silva, concede sua primeira entre/vista a TVfulinaíma e em seu pronunciamento pudemos observar o seguinte: - "desde que li pela primeira vez o livro O Outono do Patriarca, de Garcia Lorca, que sonhei um dia estar nesta cadeira. E agora pretendo desenvolveras investigações que há muito me instigam no vizinho Reino/Imperial de Brasylândya e na ex-capitania dos goytacazes. Alguns fatos históricos precisam ser melhor esclarecidos, como por exemplo: a falência da Usina de Outeiro e os intermináveis empréstimos da COOPERFLU (cooperativa dos usineiros do norte fluminense),  junto ao Ministério do Planejamento do vizinho Reino, de onde nos chegam informações que o "fantasma" de Ulisses estaria aparecendo vez em quando no Palácio Jaburu, e não a temer que possa afastá-lo de lá. Como costumava dizer minha querida mãe: - há muito mais mistérios entre o Reino de Assombradado e o Reino de Brasylândya do que possa imaginar a nossa vilã filosofia"

MOENDA

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço

usina
mói o braço
a carne o osso

usina
mói o sangue
a fruta e o caroço

tritura
torce dos pés
até o pescoço

e do alto
da casa grande
os donos do engenho
controlam:
o saldo & o lucro

Artur Gomes

sexta-feira, 13 de maio de 2016

pátria minha


Pátria Minha
Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para 
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra 
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha 
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.

Beatriz Lobo: obrigado pela sugestão!

Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".


Clic no link e ouça o poema na voz do próprio Vinicius de Moraes