terça-feira, 3 de maio de 2016

gran circo marmellada




Gran Circo Marmellada

hoje tem espetáculo
com o monstro de 7 cabeças
o engulidor de espadas
com 7 contas na suíça
e outras tantas no exterior
e todo dia no Gran Circo
a platéia é sequestrada
e o espetáculo é um horror

a platéia contra ingresso
mas  é proibida a entrada
então a platéia sempre fica
no cercado do planalto
enquanto o monstro do Gran Circo
promove o crime do assalto


Artur Gomes
www.fulinaimicas2.blogspot.com 




NINGUÉM APRENDE A DESENTRISTECER
        
Bon jour tristesse! É triste ser gordo, ter estria, varizes, celulite, rugas, espinhas. É triste a velhice. É triste ser semelhante em ilusão ao cavaleiro da triste figura Dom Quixote, de Cervantes. Triste não poder imaginar, como Charles Chaplin, que a coisa mais triste é alguém habituar-se ao luxo. Volta-se à terra em condição de nada. Triste é desdenhosamente ler o livro e numa roda razoável de citações, não saber a causa do Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Triste é ouvir passarinho preso na gaiola cantar bonito, bonito, e saber que em liberdade ele ficaria mudo e morreria. 

Diz o provérbio: a tristeza é a sombra do diabo. Donde barrocamente Gregório de Matos ter observado que "em tristes sombras morre a formosura - em contínuas tristezas a alegria." Triste é saber que pessoas interessantes não andam a esmo por aí. Triste mesmo, de doer fundo no estômago estufado, é ver uma criança com fome. 

É saber que o Brasil é um "muito triste trópico", como soube Cazuza. Ou saber, como Guimarães Rosa, que infelicidade é uma questão de prefixo. É triste não ter esperança. Porque "é difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste", como poetou Cecília Meireles, que não era "nem alegre nem triste." É sentir, como Vinicius, o poetinha imenso, que às vezes "é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai."
        
Ou viver o oxímoro da alegria na tristeza, como o uruguaio Mario Benedetti, porque a tristeza pode ser nós mesmos, pelas dores do mundo, por causa de uma palavra ou um gesto, ou porque, escreveu Martha Medeiros, "triste é não sentir nada." Todo ser humano, em ocasiões mais díspares, tem o direito sentimental de afirmar como Pablo Neruda: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite." Porque ninguém sabe exatamente quando ela pode chegar e provocar estrago na vida, nem saber ao certo o que ela é, como Fernando Pessoa não sabia: "Deve chamar-se tristeza - isto que não sei que seja - que me inquieta sem surpresa..." 

"Tristeza não tem fim, felicidade, sim", diz a letra da bossa nova. Só o cinismo é mais triste do que a tristeza, diz Tati Bernardi. A tristeza, disse-o Caetano Veloso, é o cu do mundo. Repararam: A tristeza está sempre "de malas prontas"...pra ficar. Tristes são aqueles que "vêm do nada e partem para lugar nenhum." Tristes são aqueles seres vivenciados pela solidão de Caio Fernando Abreu quando escreveu: "Na máquina de música, para embalar esse encontro que eles ainda não perceberam que estão tendo, para ajudá-los a navegar nisso que por enquanto não tem nome e poderiam sequer ver, se eu não ajudasse, escolherei lentos blues, solos sofridos de sax, pianos lentíssimos, à beira do êxtase, clarinetas ofegantes e vozes graves, negras vozes roucas àsperas de cigarros, mas aveludadas por goles de Bourbon ou conhaque, para que tudo escorra como a bebida de outras águas, não estas tão turvas, de onde emergiram dois pobres peixes cegos da noite, para sempre ignorantes da minha presença aqui, junto à máquina de música, ao lado do corredor que leva aos banheiros imundos, a criar claridades impossíveis e a ninar com canções malditas esse encontro inesperado..." Tristes somos nós, brasileiros, resultantes de três raças tristes. 

Pior, talvez, os que têm o que Camilo Pessanha caracterizou como de "almas tristes, severas, reservadas.", porque esses guardam só pra si até mesmo o quase impossível fio de alegria uma vez na vida. Tristezas bêbedas, venéreas, loucas e repletas de vida foram as que compuseram a Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez. Por isso Drummond tem razão: "Que tristes são as coisas sem ênfase."
        
"Tristeza, por favor vai embora!, e ela nem sempre vai. "Porque "triste madrugada foi aquela - em que eu perdi meu violão." Ou uma pessoa de fino trato ante uma situação blasé, que para curar ressaca moral por ter uma vida inteira desdenhado outras todas por qualquer motivo fútil, talvez por mania de grandeza, talvez para se esconder na empáfia, ouviu a Sinfonia nº 3, andantino quase allegretto, de Bach, com a New York Philarmonic sob a regência de Leonard Bernstein, antes de comer um último pedaço de burratta com castanha moída e pular do 26º andar do edifício que sempre ocultou sua impotência sexual.
        
Tristeza é quando um jovem capixaba reconhece triste a canção My first night alone without you,  cantada por Ray Charles. Ou quando a juventude lamenta Tears in heaven ter sido composta por Eric Clapton ao perder um filho de forma trágica, imaginando-o no paraíso.Triste é não saber a lição certa na hora certa, pois, também Drummond, "esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade." Alguém escreveu: "A dor promovida pela ausência dos afetos nos leva a meditar sobre os verdadeiros valores da vida. Nesse sentido, a tristeza pode se constituir em alavanca para o nosso progresso moral."

Marcio de Almeida
Contato - marcioalmeidas@hotmail.com
             

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