quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

movimentos



Movimentos

Das Arcádias trago
os seios da senhora a Madona
Medusa a Monalisa
os mamilos de Vênus
as cochas de Afrodite
Zeus meu pai - acredite
o desejo desse beijo
em um tempo que não foi
no teu corpo minhas lavras
as palavras – alguma ilha
na parábola de nós dois

ouço a música nesse disco estrangeiro
e essa musa tem um que de Guanabara
no silêncio ela ri da nossa cara
a flor do mangue agora mora
onde era água e no seu leito jorra lama
por sua boca desdentada peixe podre
como uma Angra no poema a carNAvalha
o sal da terra naturalismo onde supunha
eco sistema não interessa ao mato grosso
o agro-negócio só quer saber  de criar bois
e o simbolismo da escrita é só metáfora
a concretude o modernismo vem depois

Artur Gomes
www.fulinaimicas2.blogspot.com





quarta-feira, 7 de novembro de 2018

poéticas




Poética 42

Era uma menina vestida de outubro
atravessando a rua
com um girassol no seu vestido

suas mãos beijavam o vento
como fossem lábios
de um beija-flor

meus olhos mergulhados 
na paisagem
entre os olhos da menina
e o espelho do retrovisor

foto.grafei  naquela tarde
a cor do seu vestido
e o girassol daquele dia
para me habitarem
seja lá por onde eu for





Poética 43

A menina vestida de outubro
se espantou com a minha idade
os homens velhos da usa cidade
dormem cedo com medo de poesia
nunca viram os Girassóis  de Van Gog
nunca ouviram Luís Melodia
nem sabem que Todo Dia É Dia D
e Poesia É Todo Dia

Federico Baudelaire



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Entrevista com a Psicóloga Isadora Chiminazzo Predebon




 Artur Gomes - Formado o tripé: psicologia psicanálise filosofia, de que forma você acha que poderíamos utilizar conhecimentos dessas áreas em Laboratórios de Teatro?

Isadora Predebon - Se partirmos do pressuposto que a Psicologia e a Psicanálise também têm algumas de suas bases de inspiração e influência na filosofia e também na arte, seja para explicar seja como metáfora, os laboratórios de teatro podem ser contemplados no que tange às particularidades do indivíduo. Em outras palavras, quero dizer que podemos pensar no seguinte sistema: persona-personalidade. Em que sentido? 

A partir do momento em que compreendemos que a palavra personalidade também se originou da palavra ersona” nos teatros da Grécia Antiga, para representar diversos personagens e suas particularidades, isto é, a sua individualidade, sua personalidade e, possivelmente, também sua identidade. Hoje, não precisamos mais utilizar de máscaras para a identificação e diferenciação, mas o teatro, como qualquer outra atividade, é influenciado pelo tempo-espaço-evolução. 

Se hoje homens e mulheres habitam o mesmo espaço no teatro, assim como outros públicos, a interpretação deve tornar o personagem tão humano (de dar vida, mesmo) que se pareça com alguém que conhecemos. Mas e como fazer isso? Não sei como funciona uma oficina de teatro propriamente dita, contudo, penso que a observação de pessoas ou coisas seja um ponto muito interessante para explorarmos o que cada pessoa tem de único no mundo e o que tem de semelhante, o que pode ser levado para um personagem, por exemplo.

As idiossincrasias do comportamento e personalidade de cada um. Outro ponto importante é ler - livros, jornais, revistas, entre outros - se inspirar e agir como se imagina que o outro agiria. Ver filmes e produções audiovisuais. Compreender a história, os termos, os conceitos. Inspirar-se e construir, diferente de reproduzir algo pronto, é imprimir quem eu sou no personagem, torná-lo único e insubstituível.

Artur Gomes - A poesia levou você a ser psicóloga ou a psicologia te fez aproximar da poesia ?

Isadora Predebon - As duas entraram em momentos diferentes em minha vida. Lembro que quando criança me encantava mais com os livros de poesia do que outros. Acho que a paixão do poeta em sua poesia sempre me chamou mais atenção, assim como as brincadeiras com as palavras. Quando estava no quinto ano do ensino fundamental precisei escolher um livro para fazer uma análise para a aula de Língua Portuguesa e escolhi um livro do Mário Quintana, para mim fazia mais sentido, porque poesia para mim tem a ver com sentimento e emoção. Não que outras formas de escritas não tenham isso, obvio que tem, mas na poesia sinto que a entrega é diferente...

Quando criança também me encantava com coisas que hoje compreendo dentro do campo da psicologia, mas na época isso não tinha nome ainda para mim. As minhas preferências, identificações foram me levando pouco a pouco até a psicologia.

Fui entender o que fazia uma psicóloga com uns 10 anos de idade, antes disso, falava que, por exemplo, queria ser médica que ajudasse pessoas também com os sentimentos delas  a se sentirem melhor não só fisicamente. Eu me referia a isso por, em primeiro lugar, não querer lidar com agulha e sangue (meu pavor), mas ainda entender que as pessoas podem ser tratadas de diferentes formas e, em segundo lugar, ter sido apresentada ainda criança à medicina homeopática e ter me identificado com o trabalho da médica (que é minha médica até hoje e a tenho com muito carinho). 

Enfim, aos poucos fui percebendo que várias identificações foram me levando a conhecer a psicologia e a me encantar por ela a ponto de escolher como área de estudo e profissão. Por isso, acredito que a poesia e a psicologia entraram separadamente, mas como muitos teóricos da área falam: a arte antecede a psicologia, sem ela não explicaríamos algumas coisas, pois ela nos faz refletir. e criar. Por isso, precisamos de arte, de contextualização histórica, de poesia, de cinema e entre outros.

Artur Gomes -  Por quê e quando começou a se interessar por psicologia e definiu que o seu futuro profissional seria esse?

Isadora  Predebon - De certa forma, a Psicologia me reaproximou da arte (no sentido geral). Por um tempo acreditei que não tinha habilidades criativas para isso, talvez por me comparar com outras pessoas (o que não é correto, mas fui entender isso com 20 anos). Com o tempo entendi que não importa onde estamos, a cultura e arte vão estar presentes tanto quanto o ar que respiramos e não temos como fugir dela e o melhor é sentar, pegar uma pipoca e assistir um filme e se deixar tocar por ele; ler um livro e refletir sobre o que se leu; parar um tempo e se deixar apaixonar pela paixão do poeta; se deixar apaixonar pela pintura do artista-plástico ou pela obra do escultor... Não podemos controlar o que sentimos, mas podemos refletir sobre como somos tocados pela arte, seja ela qual for. E ainda, enquanto psicóloga, analisar o que aquilo está sendo dito e apresentado (mas aí, o negócio é até mais amplo!).


sábado, 29 de setembro de 2018

poéticas



Lençol de Folhas

Estendi nosso lençol de folhas secas
à beira mar
te espero na lua cheia
quando você chegar
vamos fazer um carnaval
traga a sua fantasia
não se preocupe
onde vamos sonhar
nossa cama é na areia

Artur Gomes Gumes



Poética

pedrinha na areia
é partícula do desejo
se solta dos corais
e vem nas ondas
morrer na praia
implorando por um beijo

Artur Gomes Gumes



Viagem

Barrinha
é logo depois de Manguinhos
antes de Buena à Vista
onde a barra é mais pesada
navego em teu corpo tenso
nem sei onde começa
o avesso dessa estrada
depois que te beijo nua
teus olhos se perdem na lua
a boca pede para ser beijada

Artur Gomes 



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

antropomágica




Antropomágica


a primeira vez
foi um primeiro beijo então roubado
ali já ficou sacramentado na tropicália
o que iríamos desvendar
por entre cinzas nos currais
nas aldeias, ocas, nas taperas
por quantas Eras iríamos se encontrar

agora com  pá/lavro outras amoras
plantei tuas sementes
no quintal da estação três cinco três
os frutos colherei junto ao teu nome
da tua carne comerei mais uma vez

Artur Gomes Gumes





Algo sobre céu

Pousam nas xícaras da noite passada
borboletas da Índia, tons de corais.
Sobre a borra de café, aroma salino
e profundo do Índico.

Asas transparentes, projetam azuis
no banco silencioso e frio da parede
como se fosse primavera.

Telas de anjos e outras divindades
(dessas que não lembramos de onde vem)
como se vivas, vertiam lágrimas
intactas pétalas de flores
bordando o tapete da sala
da mais pura igualdade e paz.

Nas borras do café da noite passada
abriu-se cristalino, o destino
nas asas das borboletas da Índia
no cheiro de incenso de mirra.

E todo ser fez-se um pedaço do Divino
pausa no tempo,  no acorde menino
por instantes, o brinde do vinho
e tudo em volta fez-se céu
e tudo em volta, céu
profundamente céu.

Tonho França
Do livro Quarto de Azulejos
Editora Penalux - 2014

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

lua cheia



lua cheia

tatuei com a língua a data
no teu corpo litoral – meu corpo em chamas
o mar lambeu o sal na concha
que plantei no teu umbigo
um palmo abaixo espuma  ondas
por entre o vão de nossas coxas
Netuno aceso como um beijo de setembro
linguagem viva no temporal por onde for
eu sonho a lua quando  cheia
que  me transmuta pra compor

Artur Gomes

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

tempo poético



Tempo  
Para Isadora Chiminazzo Predebon

O tempo é o senhor
dos meus ponteiros de músculos
relógio oculto no incons/ciente
o tempo
nos olhos daquela viagem
a paisagem
Caminho de Pedras
 o cenário
Vale dos Vinhedos
o tempo
guardo em segredo
como uma Jura Secreta
na íris dos olhos dela
na face oculta da noite
na retidão clara do dia
como um concha na areia
o tempo mar de espumas
sargaço algas noturnas
a carne do corpo também
o vinho do tempo na boca
e a língua dizendo amém

Artur Gomes Gumes





poeta

por um poema
que desconcerte
entorte
desconcerte
arrombe a porta
dos céus
da tua boca
arranhe os dentes
da loba
arrebanhe os cordeiros
no pasto
e lhes ensine
a subverter
as ordens do pastor
assumo o risco
não sou o demo
nem corisco
eu sou cantor

Artur Gomes Gumes

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

sagaranagem turca



Sagaranagem  turca

estella ainda passeia
direto na veia
naquele encontro marcado
o amor não consumado

me beijou no morro da urca
despindo seus montes claros
umbigo colado  no umbigo
marcou comigo no catete
com aquela fome do cacete
pra comermos nalgum lugar

estella fugiu pra tijuca
deixando-me naquela sinuca
em nossa cama de sonhar

Federico Baudelaire





linguagem

abraço este poema
como se beijasse meu poeta
com suas linhas tortas
em meu corpo tatuado
teu nome e sobrenome
como um  gozo ardente
tua língua ativa
me lambendo quente
e todo líquido escorrendo
por entre o vão dos dentes

Gigi Mocidade

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

mitológicas



Jura Secreta 106

Clarice deseja o indesejável
na escuridão o que não tem nome
o abominável dos desejos
no sagrado o que não se dizia
descrevias as galáxias de Haroldo
descendo ao concreto de Augusto
como se fosse simbolismo pós-moderno
em Dante queria sempre descer aos infernos
no silêncio seu barulho nas auroras
penetrando meus abismos
em labirintos pra mastigar meus pesadelos
quando a noite se vestia de mistérios
com 7 velas que acendia para Oxossi
entre as matas do seu corpo em desconcerto


Mitológica

O sorriso de Monalisa
na boca de Clarice eletri-fica
Zeus em mim por todas Heras
deusas angelicais
beijam meus lábios canibais
cantando salmos
em hóstias consagradas
no altar – secretas juras
e os bíblicos enciumados
excluíram meus poemas
das sagradas escrituras


Enigma número 2

arde em minhas mãos teus poros
minhas unhas ainda queimam
dentro o sal das tuas ágoras
outubro era quase um mar de folhas
no coliseu dos imigrantes italianos
e nossos corpos não tinham panos
nos planos só o amor das águas
o vinho temperava nossas línguas
ao mastigar a santa ceia
Clarice trigo do pão em minha boca
fermento de Zeus em nossas carnes
no vale Olimpo onde gozamos
com fachos de fogo em nossas veias

Artur Gomes




sexta-feira, 17 de agosto de 2018

jura secreta 103




Jura Secreta 103

Clarice em tudo que ainda não disse
em tudo o que ainda disser
nas páginas de um livro branco
como fosse um chocolate
quem sabe vento de maio
as flores do mal desfolhasse
nas pétalas do bem-me-quer
num carnaval na quarta-feira
Clarice a porta/bandeira
do mestre/sala  Federico Baudelaire

Artur Gomes
Fulinaíma MultiProjetos
(22)99815-1266 - Whatsapp


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

jura secreta101



Jura secreta 101

fosse Clarice
uma mulher aos trinta
em tudo que ainda sint(r)a
como um mar pulsando ostras
beijaria o sal nas coxas
entre deuses céus infernos
fosse sagrado – não profano
nossos desejos mais e-ternos

fosse nu – corpo sem planos
como o vento nos vinhedos
em teus cabelos – desalinhos
os teus poros nos  meus dedos
tua lã fosse meu linho
tua língua entre meus dentes
 em nossas bocas tinto – vinho

Artur Gomes



quarta-feira, 1 de agosto de 2018

poeticas


Poética 106
Para Carolina Barbato

tua voz ecoa
marulha um mar
de um outro cais
e vens em ondas
 solos de cristais
acordando algas
cavalos marinhos
peixes abissais

rouca  elétrica
essa garganta lírica
de vocais intensos
quando teu ser eu penso
como  um som atávico
de milhões de Eras
nas línguas  da história
que os meus ouvidos híbridos
ainda ouvem  na memória


Poética 105

bebo teus olhos
dentro da noite escura
de onde vens criatura
que me consome na fala
quando me olha e se cala
no seu profundo pensar

mergulho no teu silêncio
pelos mistérios do cio
pelos segredos do ar
o que me trazes do rio
o que me teces no fio
o que me levas do mar



Artur Gomes Gumes


terça-feira, 3 de julho de 2018

a menina que roubava sonhos



A menina que roubava sonhos

Era uma tarde qualquer
Ensolarada em Nova Roma do Sul
havia acabado de falar poesias
de Oscar Bertholdo
na semana cultural da cidade
enquanto ela me esperava sentada
na porta do VinoCap em Bento Gonçalves

Dalí já era um pintor su-realista
quando na noite entre poesia e outra
nos beijávamos no lugar
da memória e    boemia

Artur Gomes
o poeta enquanto coisa

terça-feira, 29 de maio de 2018

toda nudez não será castigada



toda nudez não será castigada

quantos azuis celebram
tua pele pêssego
para que o amor seja
sempre
a fruta que a semente
explode em luz

Federico Baudelaire